Monge Paulo diPaula 


Memorial Paulo diPaula

Na época que conheci o monge Paulo diPaula estava morando temporariamente com a minha mãe enquanto me recuperava do acidente que sofri de bicicleta. Mal conseguia andar e tinha que tomar uma porção de remédios. Precisava de cuidados e de uma boa alimentação, coisas que morando sozinho nunca conseguiria. Tive tempo de sobra para pensar na vida e descansar, mas algo em meu peito não dava sossego. Sentia um aperto dentro de mim.

Passado um bom tempo, minha mãe percebeu que eu andava meio quieto demais e começou a sugerir algumas viagens para nos divertirmos um pouco. Naquela altura já estava começando a andar melhor e a sentir menos dores, não teria problema algum em dirigir. Lembro que a mãe sempre vinha com uma sugestão de viagem e eu sempre respondia que não era bem isso que eu gostaria de fazer, que era outra coisa, mas não sabia exatamente o que era.

Comecei a pesquisar e a tentar entender o que aquele aperto estava tentando me mostrar. Percebi que a viagem que eu realmente gostaria de fazer era outra, bem longe de carros e rodovias. A minha intuição apontava para outro sentido, para algo que passava bem longe de qualquer explicação racional. Precisaria abrir a mente ao máximo e simplesmente acreditar com todas as forças e seguir adiante na busca.

Depois de muita investigação finalmente encontrei o que tanto procurava, um local de meditação chamado Spa Espiritual Luz da Floresta e era lá que serviam Ayahuasca. Uma grande revolução estava agendada para a minha vida nesta nova fase e naqueles três dias de retiro pude operar todas as transformações que se faziam necessárias, começando pelo abandono da empresa de que era sócio. Decisão difícil. Mudanças ainda mais radicais estavam por vir.

É Impressionante a intensidade do encontro espiritual que o Chá Sagrado proporciona, e tudo é muito melhor quando se é bem orientado nessa prática. Nessa ocasião, tive o privilégio de conhecer o monge Paulo diPaula, um ser humano muito distante do normal, uma mescla de sábio e excêntrico, um sujeito pacífico e explosivo ao mesmo tempo, um ser que definitivamente não se enquadrava nos padrões sociais da cidade. Morava isolado de tudo, sozinho no meio do nada.

Lá, na calmaria da floresta, podíamos estudar, ler, assistir documentários e tomar Ayahuasca. Nas nossas conversas, diPaula explicava tudo sobre o Chá, desde a sua composição, até aos efeitos da DMT, seu componente ativo que também é encontrado em outras plantas e animais. Aprendi que é a DMT a responsável pelas experiências místicas que temos, além da sua íntima relação com a glândula pineal. Durante os nossos longos passeios pela floresta o monge contava as suas experiências com o Chá e os grandes períodos de jejum e meditação que o ajudavam a transcender ainda mais. Enquanto o ouvia, ficava imaginando quais galáxias ele teria visitado. Contava com orgulho sobre as pessoas que ele tinha ajudado no seu Spa Espiritual e das celebridades que faziam uso da Ayahuasca, como Caetano Veloso, Lucélia Santos, Ney Matogrosso, Sting, Monja Coen. DiPaula guardava cuidadosamente uma revista com a entrevista da monja contando a sua experiência: "se soubesse que era assim tão bom tinha tomado há muito mais tempo. Teria poupado anos de meditação". O monge Paulo sorria, satisfeito.

Foram três dias de Rituais, tomando o Chá três vezes ao dia. Um tratamento intensivo, sem dúvida alguma. Em todo esse tempo Viajando com Vinho das Almas, pude me conhecer mais profundamente, encontrar os meus pontos fracos e fortes, perceber os meus erros do passado e corrigi-los, entender melhor os mecanismos da vida e do Universo. Também tive contato com outros seres em outras dimensões. Vi e senti coisas muito difíceis de descrever em palavras, mas fáceis de perceber através dos sentidos enquanto se está na Força.

Como dizia o monge diPaula: "três dias de Ayahuasca fazem mais efeito do que três anos no consultório do psicólogo".

Saí do retiro muito melhor do que quando cheguei. Era uma outra pessoa, muito mais aberto e livre daquele medo que tinha do Chá dos tempos do Daime. Soube que o monge Paulo diPaula faleceu. Fiquei triste com a notícia. Sempre guardarei com carinho as memórias do Spa Espiritual Luz da Floresta e da minha convivência com o monge que, na sua dedicação em tempo integral às atividades espirituais, pôde ajudar tanta gente. Um grande ser humano, sem dúvida.

Após voltar do retiro e de cumprir todas as lições de casa que as experiências com a Ayahuasca me proporcionaram, decidi me aprofundar nas práticas com o Chá Sagrado. Foram mais de quatro anos de estudos e Rituais nas mais diversas modalidades, além das minhas práticas livres. À medida que ia avançando, novas portas se abriam.

Nesse período optei pelo vegetarianismo. Fui facilmente convencido pelo documentário Earthlings (Terráqueos) que aborda o modo como os animais são abatidos, toda aquela tristeza e dor causados pela atual indústria alimentícia e seu apelo irracional pela necessidade humana da proteína e de outros componentes animais. Após terminar de assistir ao documentário de uma hora e meia de puro sofrimento, fechei o computador e decidi que, daquele momento em diante, não comeria mais carne pelo resto da vida.

Uma decisão bastante coerente com todas as transformações espirituais pelas quais estava passando e, graças a Deus, não me tornei num ativista chato a querer convencer todo mundo a fazer o mesmo.

Sou da opinião que mais vale ser um carnívoro feliz do que um vegetariano triste. Cada qual deve seguir o seu caminho espiritual e para alguns o vegetarianismo ainda não fará parte desse caminho. Talvez o faça no futuro, quem sabe.

O que posso afirmar é que essa decisão só me fez bem, melhorou muito os meus níveis energéticos, emagreci mais de dez quilos e hoje digo, com todo o orgulho, que realmente faço alguma coisa útil pelo planeta ao não depender da matança e do sofrimento dos animais. Se alguém se tornou vegetariano seguindo o meu exemplo já fico mais do que satisfeito.

A Ayahuasca foi uma das maiores - se não a maior - experiências da minha vida. O grande marco na minha evolução espiritual. Uma maravilhosa ferramenta que me ajudou, e ajuda, a resolver problemas, admitir certas fraquezas e a encarar os meus monstros. Muitas questões foram saldadas e inúmeros ajustes realizados.

Olhando para trás, sinto-me grato por tudo e também pela proteção que sempre recebi. Agradeço a Deus, aos meus Anjos da Guarda, mentores e caboclos que participaram - e ainda participam - ativamente desse processo sem fim.

Acredito que todos temos um despertar em algum momento da vida. Uma referência, um acontecimento, algo que marca o antes e o depois. No meu caso, sem sombra de dúvida, o divisor de águas foi o poder e o carinho do Feminino, da Mãe, a Força da Ayahuasca, o Chá Sagrado.



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